segunda-feira, 2 de julho de 2007

Ian McEwan e sua reparação

Para quem também escreve, enternece um livro que começa contando a história de uma menina que escreve. Por isso gostei de cara de Reparação, de Ian McEwan (1948- , Cia das Letras). Esse arroubo, durante a leitura, foi se aprofundando, transformando-se em deleite e admiração. Há anos não lia uma romance de tanta qualidade, seguindo a tradição clássica do romance inglês. Bom argumento, estilo elegante e personagens bem construídas. Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. Sem invencionices ou cafajestadas.

Já havia lido muito sobre o autor, mas não tinha “me ligado”. Os livros – parece que como tudo na vida - têm sua hora para acontecer. Li resenhas e críticas extremamente favoráveis sobre Sábado, e fiz vagas promessas a mim mesma para ler qualquer um dos dois. Mas foi Reparação que caiu em minhas mãos primeiro.

Lançado no Brasil em 2002, conta a história de Briony Tallis, uma menina que escrevia, na Inglaterra pré-2a.Guerra, e que se torna uma escritora de renome, na virada do século. Em 1935, Briony testemunha à distância uma cena entre sua irmã (Cecília Tallis) e o filho da empregada (Robbie Turner), criado como membro da família. Esse testemunho - misturado com uma intriga trazida pela vinda dos “primos do Norte” e com a chegada do irmão que trabalha em Londres, acompanhado de um amigo – irá desaguar na tragédia que será o alvo da reparação. Dois quartos do livro passam na década de 30, um terceiro dá um salto para 1940 e o fecho ocorre em 1999.

McEwan escolheu como epígrafe uma longa citação de Jane Austen. Há várias referências a outros marcos da literatura inglesa no corpo do livro, como é o caso da citação do nome de Rosamund Lhemann (1901-1990, Canção do ódio e Poeira), cujo estilo seria seguido por Briony Tallis, em sua maturidade. Essas referências parecem propositais, como discorrido aqui. Robbie Turner – que financiado pelo pai de Briony vai estudar em Cambridge – lê Auden e T.S.Elliot.

Reparação é envolvente. E me comoveu. Cria uma atmosfera que nos acompanha mesmo depois de acabada a leitura. Uns das melhores qualidades de um livro, no meu entender. Trouxe a minha memória, além disso, uma série de coisas de minhas infância e mocidade, ainda que de natureza completamente diversa daquelas relatadas no livro. Ao ler um bom livro, além de pensarmos nos outros, retratados nas letras sobre o papel, pensamos em nós mesmos, revistando nosso passado e nossa realidade, às vezes sob novos ângulos. Pelo que me lembro é sobre isso que discorreu Ítalo Calvino, ao escrever Por que ler os clássicos.

McEwan foi acusado de plágio, no terceiro quarto de Reparação, no trecho em que retrata a rotina de um hospital inglês na época da guerra. Fora isso, descobriu que tinha um meio irmão, filho de sua mãe. Elegante, como quase todo inglês, disse lamentar o fato de ter descoberto isso tão tarde. Seu pai está morto e sua mãe com demência senil. Não julga esta última, afirmando que apenas quem passou por uma guerra é capaz de entender certos gestos. Só isso daria um outro livro.

Encantada com Mr. McEwan, parti para a leitura de Na Praia, seu livro mais recente aqui no Brasil. Ótimo livro, que leio com muito prazer.

3 comentários:

Edd. Caulfield disse...

Fantástico o blog. Antes, fantástico o texto e o bom gosto.

Estou logado no blogger, mas escrevo em: breviario.org/sententia

Um abraço.

Horvallis disse...

Ainda não abri um livro do McEwan. Adoro Poeira de Rosamond Lehmann. Esse livro tem um encanto. Li os outros dela, mas sem achar neles o mesmo poder.
Beijos

Kovacs disse...

Antes de mais nada declaro a minha identificação imediata ao subtítulo do seu blog: "gostaria de poder dizer que Flaubert sou eu". Eu também, mas quem não gostaria?

Em segundo lugar também achei "Reparação" de Ian McEwan um romance perfeito e publiquei uma resenha em meu blog, se tiver tempo passa por lá.

Parabéns pelo excelente texto, certamente voltarei por aqui.