sexta-feira, 13 de junho de 2008

martini, será que dry?

Ontem, Dia dos namorados, véspera de Santo Antonio, fiz um doce de batata roxa para levar à festa que vou hoje à noite. Enquanto apurava o doce – cuja cor é linda, roxo paixão – tive um insight: faço coisas que as mulheres do século XIX faziam; fiz coisas que grande parte das mulheres do século XX fez e tento fazer, hoje, o que as muito jovens fazem: manter um twitter, por exemplo. O que é? Um blog em tamanho diminuto, atualizável a todo instante, em que a pessoa anota tudo o que faz. Será que isso realmente faz algum sentido?

Para mim faz. Voltei a usar o pseudônimo que adotei em meus primeiros dias de blogosfera, lá nos idos de novembro de 2004: berthe, uma homenagem à Ema Bovary e a sua filha, Berthe Bovary. É isso: tenho por base de cultura as leituras do século XIX. É claro que a base, uma vez que a ela adicionei já tanta coisa...

Sigo as receitas de doces daquelas mulheres de dois século atrás. Mas, como toda (ou quase toda, não é cabido generalizar) Baby Boomer, fui criada por pais que leram Liberdade sem medo (o must pedagógico nos idos 1960), era fã dos Beatles, Rolling Stones, lembro-me de maio de 1968 (inclusive da guerra FFLCH x Mackenzie na Maria Antonia). Comecei a trabalhar muito cedo porque quis: aos 18 anos, quando entrei para a Fac. De Direito, fui trabalhar em um cartório de um tio-avô (tão Balzac, que obrigado pela família também trabalhou em um cartório). Fiz política universitária USP, formei-me e no dia que colei grau (neguei-me a ir a festa de formatura, para mim uma formalidade sem sentido), saí de casa para morar sozinha. Entre todas minhas amigas, fui a primeira e praticamente a única. Meu pai teve uma conversa comigo: que ele me amava e me amaria para sempre, mas que o dia que eu saísse de casa não receberia mais um tostão dele. Esclareci que eu tinha um bom salário (e era verdade) e que em caso de urgência eu podia vender o carro (que era meu, comprado com meu dinheiro).

Mais ou menos, fazendo o balanço, antecipei muita coisa com relação às pessoas – principalmente as mulheres – da minha geração. Aos 13 anos, fui convidada para fazer uma matéria para a revista Manequim, da Abril, tornando-me, assim, uma das primeiras modelos mocinhas. Até então, só usavam uns mulherões. Não foi nada por acaso: eu escrevi para a editora e mandei minhas fotos. Escondi isso durante toda a vida, pois havia o preconceito que se é bonita não pode ser inteligente. Com 13 anos eu lia Sartre e minha melhor amiga me falou de Yeats. As quatro fases da Lua.
Até entrar na Faculdade, tirei uma porção de fotos (Manequim, uma Vogue,Suplemento Feminino do Estado de SP) e fiz alguns comerciais de TV (o mais visto, o do desodorante Rexona). Raramente as pessoas ligavam o nome à pessoa. Era tão fora do contexto que ninguém imaginava. Minha mãe sabia e deixava; meu pai nunca soube.

Eu queria ter uma carreira séria e tinha consciência de que aquilo era passageiro.

Antecipei-me quando fui estudar Direito Internacional, aplicado às operações comerciais e financeiras. Naqueles idos de 70, em um Brasil com uma economia fechadíssima, seguindo o modelo das substituições das importações, a maioria não via nenhum sentido. Estudei fora, fiz dois estágios no exterior (Paris e Luxemburgo), antes que isso fosse trivial como é hoje, em tempos globais. Fiz uma carreira até que bem legal no setor financeiro: cheguei a trabalhar em NY que, segundo Andy Wharol, é a comprovação do sucesso.
Meu tempo está se esgotando: aos 40 tive uma filha. De novo, na frente da tendência atual de adiar a maternidade ao máximo para não atrapalhar a carreira.
Reinventei-me depois da maternidade, porque queria ser uma mãe presente, às antigas. Fui para o lado acadêmico e tornei-me doutora em 2003. Comecei duas novas carreiras: acadêmica e literária. Acabei a tese de doutorado e comecei a escrever o romance com que conquistaria o Prêmio SESC Literatura – 2004. Terminei o romance, As netas da Ema, e comecei este blog, que na sua primeira encarnação era o netasdaema.zip.net. Meus amigos, na época, não sabiam o que era blog.

Resolvi experimentar “twittar”. Hoje me divido em pedaços: advogada (sou sócia de um escritório), concluo meu segundo romance, comecei a escrever contos e – principalmente – tenho uma filha adolescente, transpirando hormônios e falta de educação. O que será que brota desta mistura? By the way, meu twitter é o www.twitter.berthe

2 comentários:

Juliana Dacoregio disse...

Vou mandar este texto para um amigo que às vezes diz que já estou um pouco velha para manter tantas redes virtuais de relacionamento. Aliás, adorei o texto e gostaria de reproduzi-lo (em parte ou na íntegra) em meu blog, indicando seu link e autoria, é claro. Posso?

Ilka disse...

Bravo, Eugenia!
Tenho 2 filhotes, a boy and a girl, pequeninos ainda (6 e 4 anos). Nem imagino o que será quando virarem adolescentes. Por enquanto as dicas da Super Nanny, a liçao do Içami Tiba de focar no presente e no futuro da relaçao com os pimpolhos, e o provérbio africano "it takes a village to raise a child" estão bastando. Ensinar limites não é fácil, ser adolescente também não. Como tudo, essa fase também passa. (Nesse caso, ainda bem). Serenidade. E um abraço solidário